ABONG entrevista Cida Bento

Cida Bento é Doutora em Psicologia Social e Coordenadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert),sobre discriminação racial no Brasil.

1. De que formas o racismo se manifesta na sociedade brasileira atualmente?

Algumas ações impulsionadas pelo movimento negro nas áreas de saúde,educação,trabalho,provocaram respostas de setores racistas que sempre estiveram nos bastidores e agora começam a se manifestar diante das ações afirmativas. Alguns intelectuais que escreviam sobre o tema começaram a se manifestar,principalmente alguns ligados à USP,que são contra as cotas para negros nas universidades públicas. Diante disso,acredito que o racismo tem ganhado espaço por conta das manifestações sociais a favor das cotas. A USP é um exemplo. Lógico que a Universidade de São Paulo não é uma massa homogênea,mas lá não há discussão sobre a possibilidade da adoção das cotas,somente vozes contrárias às ações afirmativas,apesar de muitas universidades federais adotarem o sistema. O Ceert fez uma pesquisa,a ser lançada em breve,que acompanhou por oito anos a cobertura dos jornais Folha de S. Paulo,Estado de S. Paulo e O Globo sobre as cotas,dando ênfase aos espaços institucionais dos jornais,aos editoriais. Não há debate,apenas manifestações contrárias às ações afirmativas. Mesmo assim,a maioria da população ainda é a favor. Ou seja,toda essa militância dos jornais não foi suficiente,pois está setorizada na elite.

2. Em quais aspectos a discriminação racial no Brasil é mais perversa?

A questão mais assustadora está relacionada aos jovens. Acredito que quando um segmento social que expropria não elimina o segmento expropriado,fica o temor. Para mim,o assassinato em massa de jovens negros está nessa seara. Em alguns lugares do país há o ingrediente de se saber expropriador e de se saber expropriado. É uma informação compartilhada que gera medo por parte de quem se sabe expropriador. De forma geral,acredito que o imaginário das pessoas deva ser trabalhado,pois o jovem negro é sempre o suspeito em potencial. Também penso que programas de segurança pública,como o Pronasci,devem ter iniciativas voltadas não somente aos soldados,mas às direções das polícias.

3. E em quais aspectos podemos dizer que houve avanços para os(as) negros(as) brasileiros?

Recentemente,uma pesquisa feita pela Febraban reconheceu que as mulheres negras são o segmento mais excluído da população,o que provocou um movimento de contratação de mulheres negras por bancos. O Ministério Público também tem assumido seu papel e encarado as desigualdades como questões que lhe dizem respeito. O MP tem inclusive provocado os comerciários no sentido de questionar a exclusão dos(as) negros(as) do trabalho no comércio. Tive acesso à uma pesquisa que acompanhou dez anos de jurisprudências sobre a questão racial no mundo do trabalho e há muita provocação de trabalhadores e respostas positivas por parte do judiciário. Os trabalhadores pautam e o judiciário responde. O número de universidades que adotam o sistema de cotas também cresceu. O setor de saúde ainda precisa avançar muito,mas hoje já existe o reconhecimento das necessidades em relação à saúde da população negra.

4. Em relação aos meios de comunicação,o que deve ser feito para colocar a questão racial na pauta?

A mídia é o pior. Não ajuda no debate,não dá visibilidade à questão. Temos algumas políticas voltadas para a população negra,mas elas nunca são notícia. Neste sentido,a realização da I Conferência Nacional de Comunicação é fundamental. Não é questão de não dar voz a quem é contra as cotas,mas dar voz a todos os setores. A discussão deve acontecer. O problema da violência contra jovens negros,por exemplo,poderia ser trabalhado na mídia,por meio da educação. Precisamos de outra mídia,pois a que está aí não serve.

5. Qual é a importância do dia 20 de novembro para a luta contra a discriminação racial?
A data ajuda as pessoas a debater o tema,é quando a mídia dá um mínimo de atenção à questão racial. É fundamental. Sou a favor de que 20 de novembro seja decretado feriado em todo o país.

 

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