O Vociferante Silas Malafaia e a Intolerância Religiosa. –por Márcio Alexandre.

Quem assistiu ontem ao programa do reverendo Silas Malafaia,tanto na Rede TV,quanto na Bandeirantes,viu um homem indignado. Alguém que estava manifestadamente afetado em sua fé,em sua crença…enfim,um homem ferido.

O motivo de tamanha indignação do reverendo era o fato de o jornal Extra ter veiculado algumas semanas atrás matérias demonstrando a vinculação entre determinadas igrejas evangélicas e o tráfico de drogas,surgindo,desta vinculação um monstruoso quadro de intolerância contra os praticantes da umbanda e do candomblé nos morros cariocas.

Em seu ódio santo,Silas Malafaia chamou o jornalista de safado,de covarde,o desafiou a provar quem são as igrejas e os pastores que fazem isso e,de público,disse que estas igrejas e estes pastores seriam débeis mentais,idiotas,caso estivessem fazendo tal vinculação,afinal,o poder do Evangelho,e tão somente ele,já basta para tirar as pessoas das drogas,da prostituição e do homossexualismo.

Em nenhum momento Malafaia tocou na questão da intolerância religiosa. Buscou apenas desqualificar a matéria e,ao mesmo tempo pontuar que o que existe é uma série de interesses políticos por trás,os dele,inclusive,como veremos mais à frente.

Silas Malafaia citou duas vezes a palavra umbanda,nenhuma vez a palavra candomblé,e em dado momento referiu-se a cultos afro. E parou aí. Nada mais disse. Não se referiu ao fato de que,independente de ser ou não débil mental o pastor que está ali “convertendo”o traficante,o fato real e objetivo é que há casos graves de violência e de intolerância religiosa contra pessoas não cristãs nessas comunidades.

De repente,não mais que de repente,o discurso do reverendo mudou e ele passou a falar da questão da homossexualidade. Reparem que acima eu grafei o sufixo ismo,quando ele,o Malafaia,refere-se ao “homossexualismo”. Ou seja,o sufixo ismo é o que determina doença,é o que se tornou uma das primeiras bandeiras do movimento GLBT que era dizer que a homossexualidade não é doença,mas uma condição que já nasce com a pessoa.

O reverendo Silas Malafaia é pessoa extremamente bem preparada. É um orador brilhante,profundo conhecedor da Bíblia,da hexegese,da hermenêutica e por aí vai. Pelo que deu a entender ontem,é ainda formado em psicologia. Portanto,não é um desses ignorantes fundamentalistas que lêem a Bíblia de qualquer maneira e saem interpretendo-a da forma mais absurda possível. Não. Silas é um pastor pentecostal que sabe falar e sabe o que quer. E não há dúvida que hoje a seara pentecostal é um grande império financeiro e político.

Quando Silas Malafaia deixa de falar como um pastor,um dirigente religioso e passa a falar como um doutrinador político ele acaba por revelar a verdadeira face do seu discurso,que é,nada mais,nada menos,que conduzir as massas evangélicas naquilo que virou a grande bandeira de luta dele e de seu grupo político:o combate à homossexualidade e pelo espaço político-ideológico-doutrinário.

Quando ele diz que a sociedade brasileira não deve temer uma república evangélica,no fundo,no fundo,ele está dando a dica do desejo inconsciente dessa massa que cresce e grassa na ignorância da maioria da população brasileira.

Infelizmente o pentecostalismo e seu irmão mais pernicioso,o fundamentalismo,visceja nos espaços onde a falta de educação formal,o subemprego,a pobreza e a violência estão mais presentes. E,coincidentemente,por um desses mistérios que os Kamels e Maggies da vida respondem rapidinho,são espaços também frequentados por uma população negra,desamparada,desassistida. É triste,portanto,ver essa população negra rejeitar sua história,sua raíz,sua tradição,em nome de uma concepção teológica equivocada que busca dizer às pessoas que elas têm que se santificar quando o Cordeiro de Deus,com seu sacrifício,já tirou o pecado de toda a humanidade.

O que está posto,na verdade,é uma disputa. Uma disputa por cabeças,uma disputa por rebanho,uma disputa por mais e mais gente. Gente que esteja disposta a seguir líderes religiosos em suas guerras santas contra tudo aquilo que eles definem como imoral,como não aceitável,a partir de suas próprias perspectivas.

Em verdade,a fala de Silas Malafaia reforça a idéia de que um embate está sendo travado,que uma guerra está prestes a explodir e que ele,como um general de exército,está dando as palavras de ordem,a voz de comando para os seus soldados.

No entanto temos que romper a lógica de guerra. Temos que buscar reforçar a laicidade do estado. Temos que buscar garantir os mecanismos constitucionais e jurídicos que garantem a liberdade de culto. Temos que reforçar o diálogo com setores evangélicos que estejam dispostos a contribuir para essa compreensão e não fecharmos os canais a partir da fala de Malafaia ou de outros que possam vir depois.

Tenho a firme convicção de que o reverendo Silas Malafaia acredita em cada palavra que diz. Acredito na fé que o move e acredito na pureza de sua alma e nas boas intenções de seu coração. No entanto,problematizo esta fala a partir da percepção de que ela nao ajuda no combate à intolerância,mas a reforça a idéia de que há um mundo puro e correto (o cristão,evangélico) e a um outro errado,perdido e impuro que precisa ser convertido. E é essa lógica que precisa ser modificada. As perguntas são:estarão os evangélicos dispostos a travar este debate? Estarão eles dispostos a compreender que Deus em sua grandeza pode se manifestar de diferentes formas a diferentes culturas? Ou estarão dispostos a manterem a lógica de que a eles a verdade pertence?

São algumas questões que precisamos ter em mente para começar esse debate num outro patamar.

Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador do Coletivo de Entidades Negras –CEN/RJ
Editor do blog:Palavra Sinistra
Integrante da Rede Mamapress e colunista de Afropress
Membro do Conselho Editorial da revista Raça Brasil
MSN:marciogualberto@msn.com

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