Vila Isabel:a festa das raças e a integração latino-americana

Fábio Nogueira*

O ano de 1988 foi especial para a Escola de Samba Vila Isabel:a Kizomba,Festa da Raça,tomou conta do Sambódromo e sagrou a escola campeã do carnaval carioca. Neste ano,o movimento negro brasileiro se mobilizou contra a “comemoração” dos cem anos da abolição da escravidão em nosso país. Os enredos da Vila Isabel,assim como,o da Mangueira,dialogavam com a mobilização do movimento negro no sentido de reafirmar a dignidade do povo negro e a sua resistência frente à dominação colonial e ao racismo. O trio de compositores Rodolpho,Jonas e Luís Carlos da Vila,este último conhecidíssimo no Cacique de Ramos,foi responsável por uma dos mais belos versos de exaltação a raça negra:

“…Valeu Zumbi
O grito forte dos Palmares
Que correu terras céus e mares
Influenciando a Abolição…”

Percorridos dezoito anos deste título,a Vila Isabel fatura novamente o campeonato das escolas de samba do Rio de Janeiro com um enredo que exalta da América Latina e a figura de Simon Bolívar (1783 – 1830),nascido em Caracas e responsável de libertação de Venezuela,Colômbia,Bolívia,Peru e Equador do jugo espanhol. Em si o enredo vem em uma excelente hora:num momento em que pela América Latina as esperanças se renovam a partir da consolidação da Revolução Bolivariana,na Venezuela,da eleição do indígena Evo Morales à presidência da Bolívia,da nova ofensiva dos zapatistas em Chiapas e do crescente repúdio ao imperialismo estadunidense por parte da sociedade civil organizada. Cresce nos corações e nas mentes o sentimento e a necessidade de procurar em solo latino-americano e em suas raízes sociais,algumas pistas que nos levem a resolver o enigma da reorganização das forças progressistas e socialistas na América Latina,depois das frustradas experiências (para ficarmos nas mais recentes e emblemáticas) de governos como o de Lula,no Brasil,e de Tabaré Vasquez,no Uruguai,que se converteram em cristãos novos do neoliberalismo. As imagens da festa da vitória,na quadra da Vila Isabel,em as bandeiras da Venezuela despontavam naquele mar de azul e branco,reforçam ainda mais o significado político e cultural da integração latino-americana.

No entanto,não desmerecendo a composição de Alexandre Louzada,Alex Varela e do mestre Martinho da Vila (este último já tinha havia explorado as veredas latinas em seu trabalho,Brasilatinidade,de 2005) a simbiose entre o enredo e o momento cultural e político em que vivemos,deixou a desejar em relação àquelas personagens esquecidas do imaginário político latino-americano:o povo negro e os povos indígenas. Não há referência direta aos povos que formam a América Latina e as suas diferentes experiências de resistência cultural e política,optando-se por uma difusa “latinidade” mestiça que homogeneíza os sujeitos em torno de uma identidade cultural abstrata:

“…Soy loco por tí América”
Louco por teus sabores
Fartura que impera,mestiça Mãe Terra
Da integração das cores…”

ou

“…A Vila Isabel semeia
Sua poesia em “portunho”
E vai…buscar num vôo à imensidão
Dourados frutos da ambição
Tropical por natureza
Fez brotar a miscigenação…”

A miscigenação continua sendo o confortável retiro para a formação de uma identidade lantino-americana que suprime de seus povos originários o direito a sua condição de sujeito de sua emancipação coletiva. Em diferentes momentos das histórias nacionais latino-americanas e pela influência de intelectuais,como José Vasconcelos,no México,Fernando Ortiz,em Cuba e Gilberto Freyre,no Brasil convencionou-se considerar os povos originários (os povos indígenas),os que aqui aportaram (europeus e imigrantes) e os que foram arrancados de seu continente de origem (os africanos) como as cores primárias que tingiriam as Américas de variados tons culturais,formando um complexo amálgama que definiria a marca destes países no Ocidente. A violência – e os conseqüentes genocídios e etnocídios – que se cometeram (e continuam cometendo) contra os povos indígenas e negro acabaram encontrando justificativas que caem como uma luva para uma burguesia cínica e insensível às utopias republicanas e aos direitos civis e,por outro,à uma esquerda que,por não querer enxergar a multiplicidade histórica das populações latino-americanas,adere a qualquer compensação que a deixe tranqüila em relação a sua posição de consciência crítica da sociedade. E desta comunhão temos que,mesmo com mais de quatrocentos anos de escravização de indígenas e negros,vivemos em nações em que os racistas não existem:o que existiu foi um passado colonial pelo qual ninguém é responsável direto. Por trás do espesso muro da mestiçagem é que se escondem as desigualdades raciais.

Por isso,quando a Vila exalta a utopia de Bolívar de fazer explodir as barreiras nacionais e fazer com que os povos latino-americanos finalmente se encontrem temos que pensar numa perspectiva de que este é um movimento dialético de recusa de uma identidade nacional colonizada e do reencontro com uma identidade cultural e política negada e rejeitada pelo modo de vida dominante (e não como o início do etnocídio). É um momento complexo e ao mesmo tempo rico em que teremos que renegociar os termos do contrato entre estes povos pari passu a superação do estado de necessidade (ou seja,da pobreza e da fome). Voltando,ao Kizomba,Festa da Raça,é bom lembrar que “Anastácia não se deixou escravizar” (escrava Anastácia,cultuada no Rio de Janeiro,é conhecida por ter sido condenada a usar uma mordaça por não se sujeitar aos acossos sexuais do seu feitor) e,portanto,são estas experiências de resistência em sua plena inteireza o nosso referencial,a bússola,em direção a uma nova sociedade. Arriba Vila! Com muita raça!

* Fábio Nogueira é sociólogo e membro da Comissão Nacional do Círculo Palmarino.

Deixe um Comentário

  

  

  


*

You can use these HTML tags

<a href=""title=""><abbr title=""><acronym title=""><b><blockquote cite=""><cite><code><del datetime=""><em><i><q cite=""><strike><strong>