Em memória do jogador e socialista Sócrates Brasileiro

Senhor Presidente,senhoras e senhores Deputados,

Gostaria de registrar desta tribuna nossa homenagem a Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira,o “doutor Sócrates”,craque dos campos de futebol,que faleceu no último final de semana. E destacar um aspecto da sua vida e história que ganhou pouco ou nenhum destaque no noticiário dos últimos dias.

Além de um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro,Sócrates sempre foi admirado por sua inteligência e suas convicções políticas. Combinava a sua cabeça,o seu espírito público e sua ideologia com a melhor técnica do futebol. Era socialista,e fazia questão de afirmar sua posição sistematicamente. Não à toa,comemorava seus gols erguendo o braço e cerrando o pulso,numa clássica saudação comunista. No início da partida contra o Palmeiras,no último domingo,jogadores,comissão técnica e torcedores do Corinthians homenagearam o ídolo repetindo este gesto. Mas os narradores do jogo “esqueceram” de contar para o público o que isso representava para Sócrates.

Nos anos 80,além de craque da seleção nas Copas de 1982 e 1986,ele foi um dos principais líderes da Democracia Corinthiana,um movimento que abalou as estruturas do futebol quando o país tentava sair da ditadura militar. Defendia a luta por democracia em qualquer estrutura social,do futebol ao governo federal. Participou das mobilizações pelas Diretas e,frustrado com a decisão do Congresso Nacional,foi embora para a Itália. Sócrates,Casagrande e outros jogadores que participavam do movimento saíram do Corinthians. O país mudou e o movimento Democracia Corinthiana terminou. Mas o “doutor” nunca abandonou a luta.

Em diferentes entrevistas que concedeu ao longo de sua trajetória,afirmou sua admiração pelo enfrentamento dos cubanos ao sistema capitalista. Para ele,Cuba era o “símbolo de um sonho” de igualdade entre os cidadãos e oportunidades.  Deu a um de seus filhos o nome de Fidel,em homenagem ao líder da mais bela revolução da América Latina. Se dizia “socialista no sentido pleno da palavra”,aquele que pensava no outro,que “vivia pela gente”;que não queria ganhar,mas ser feliz.

Numa entrevista histórica concedida à revista Caros Amigos,defendeu a revolução para romper com o sistema ideológico dominante,que “só explora a capacidade de consumo da nação” e está “pouco se lixando se o povo passa fome ou está se matando”,disse.

Até seus últimos dias,aproveitou os espaços públicos de que dispunha para contestar o status quo. Em sua última coluna publicada na revista Carta Capital,chamou atenção para os inúmeros impactos ambientais que a realização da Copa do Mundo trará ao Brasil. Do desafio do transporte coletivo ao uso de energia e água nos estádios,passando pela destinação do lixo produzido,Sócrates jogou luz sobre algo que está muito longe das preocupações do comitê organizador da Copa. E criticou o distanciamento da organização do Mundial dos interesses nacionais:

“Imaginei que ele [o comitê organizador da Copa] deveria ser dirigido por gente do Estado brasileiro (…) seu organograma passa ao largo do poder público e trata tudo como propriedade privada,sem compromisso algum com o povo brasileiro,que,no fim,é quem está bancando a farra toda.”

Percebemos que o jogador Sócrates teve uma visão muito crítica de quem controla essa fantasia geral e o grande negócio em que se transformou essa  Copa do Mundo via FIFA e o Sr. Ricardo Teixeira.

Reforçamos as palavras do sábio “doutor” Sócrates,que morreu socialista compreendendo o significado mais nobre desta ideologia e defendendo sempre seus princípios:liberdade,igualdade e dignidade para o povo.

Muito obrigado.

Ivan Valente – Deputado Federal PSOL/SP

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