Socialismo e Negritude: Pela construção de uma nova ótica política
Edson Bonfim *
A conjuntura econômica mundial recrudesce o segregacionismo e fortalece a divisão entre os povos e países, o que divide o mundo em três blocos ou categorias: desenvolvidos, subdesenvolvidos e miseráveis. Contra este estado de coisas se levantam milhares de vozes nos diversos países e fóruns internacionais como, por exemplo, o Fórum Social Mundial (FSM) que se realiza anualmente, sendo quase sempre não ouvidas pelas potências que desconhecem a problemática social vivida em todo o mundo (inclusive nas periferias das grandes e médias cidades destas mesmas super potências).
O Brasil, país que poderia incluir-se entre os subdesenvolvidos, mas, com status de quase-desenvolvido, propõe-se a liderar a criação de uma espécie de “quarta categoria”, dentro da classificação anteriormente apontada, junto a outros países como a Índia e China que tem em comum o fato de se alinharem à política econômica mundial e esforçarem-se na aplicação de medidas neocolonizadoras, de inspiração neoliberal.
Desta forma se desenvolve, paralelamente a este crescimento adesista ao projeto neoliberal, uma política de quebra das organizações sociais e seus instrumentos de luta. Assim, nos confrontamos com a fragilização dos sindicatos (principal arma da classe trabalhadora) e as investidas em torno da cooptação de lideranças dos demais setores sociais organizados. Dito isto, nos encontramos em meio a uma paralisia social desmesurada, onde os mais diversos setores não conseguem responder à falta de política de inclusão. Ou seja, o bloco hegemônico neoliberal, por meio dos Estados, nestes países, investe na desorganização dos setores organizados como forma de mantê-los inertes.
Este fenômeno dá seqüência à conjuntura política mundial favorável ao projeto neoliberal, aberta com a queda do muro de Berlim e a derrocada da União Soviética, que até hoje influenciam os partidos de esquerda e os movimentos sociais. A esquerda e os movimentos sociais que buscam a construção de uma nova identidade política vivem sobre uma oscilação ideológica na sua postura, corroborado pelo crescimento da sua expressão parlamentar e institucional. Ao concentrar-se na via institucional a esquerda esquece-se que ela não é suficiente para uma real transformação da sociedade e acaba se aproximando, cada vez mais, na forma e no conteúdo, de posicionamentos até pouco tempo considerado de direita. Este processo leva a capitulação política e ideológica de setores de esquerda que, nos marcos do Estado e do parlamento burguês, não conseguem esboçar uma alternativa de enfrentamento ao avanço capitalista em sua versão atual.
Neste cenário complexo, estamos não conseguimos ir além de uma forma de luta estritamente acadêmicas e teóricas, em que diante do viés economicista da política neoliberal, a população em geral, é colocada a margem por esta política, que não apresenta resultados sociais satisfatórios. O repúdio geral, no âmbito teórico e acadêmico, verificado em análises de conjuntura política, artigos e debates econômicos, dos resultados para a sociedade, da adoção de uma política econômica neoliberal, não é acompanhado pelo povo que parece não compreender o seu caráter de classe, não se sentindo parte da luta por mudanças e transformação social.
Para tanto, urge compreendermos o mesmo grau prioridade em que se encontram os aspectos políticos, sociais e econômicos para que possamos transformar nosso modus operandi político. Tradicionalmente a esquerda circunscreveu a sua ação, à frente econômica e sindical, e no âmbito da luta social optou pelo movimento estudantil, em que a referência ainda é o setor universitário (apenas uma parcela da população universitária brasileira), fortalecendo uma forma de atuação segregacionista, pois a maioria do povo, negros e indígenas, a qual nos colocamos em defesa não se encontram representados nestes segmentos.
Destarte, encontramos um distanciamento muito grande entre os setores marginalizados e os partidos de esquerda. Estes últimos, ao primarem excessivamente pela luta intelectualizada, o “embate de idéias” e as “guerras de papel”, afastam-se do nível médio de consciência do povo. Nos pleitos eleitorais, infelizmente, torna-se cada vez mais comum à imagem caricata de representantes de esquerda e socialistas que se apresentam como verdadeiros “messias” e com retórica salvacionista recheada de bordões e clichês que não fazem nenhum sentido aos olhos das “massas”. Em certa medida, pelo menos na forma, acabam tendo comportamento idêntico ou similar aos todos demais setores do espectro político-partidário.
O desconhecimento, ou ainda, a não compreensão desta problemática e do seu modum operandis nos leva ao isolamento divisionista e limita nossas ações a macro-política, geralmente, presa aos confrontos ideológicos patrocinados pelo capital. Não estamos aqui, diminuindo esta importância ou mesmo minimizando as ações aqui desenvolvidas pela esquerda, no entanto, em um português explícito, necessitamos integrar os debates econômicos e políticos à ação militante junto aqueles setores – negros, indígenas e mulheres – que são os que realmente se encontram em situação de maior vulnerabilidade e alvos da maior cota de sofrimento causado pelas políticas neoliberais. As fórmulas marxistas do século XIX e XX necessitam ser revisitadas e resignificadas, dentro de um contexto de uma sociedade como a brasileira, na qual 46% da população é negra e excluída secularmente e 50% das mulheres vivem submetidas um regime de servidão e exploração neocolonial. Estes setores, negros e mulheres, que são a maioria da sociedade brasileira, ainda não encontraram no cotidiano político das organizações e partidos de esquerda, as condições de se expressarem plenamente.
Estes são os principais segmentos atingidos imediatamente pelas políticas econômicas “austeras” e ao desmerecermos o potencial político de negros e mulheres, perdemos de vista a consciência revolucionária que podemos construir, desde que estejamos dispostos abrir mão de nossas verdades universais e de uma leitura meramente economicista da política. Vivemos em um cenário em que a dominação do “homem pelo homem” é efetivada através do poder financeiro e não mais pelo chicote dos tempos coloniais. Este fato (o poder financeiro) não é isolado dado que a relação de dominação de uma classe por outra ou de um setor grupo social por outro, ainda se dá através da coerção econômica, recorrendo-se quando necessária à força. Basta-nos, por exemplo, dar olhar de forma breve a política estadunidense em que a coerção econômica e a sua política armamentista são os principais vieses da dominação mundial.
Quando nos debruçamos em nossa realidade nacional podemos ter a dimensão do que tudo isto significa para a nossa sociedade. Assim vejamos: a política econômica desenvolvida no país desde a época de Collor, que colocou o país como integrante do projeto neoliberal, foi seguida e “melhorada” pela permanência tucana por dois mandatos presidenciais e reforçada com a capitulação petista no atual governo, em que em via de regra obedeceu-se o receituário neoliberal, esfacelando a presença do Estado na economia e destruindo as organizações sociais, seja através da cooptação de lideranças e infiltração nos diversos setores, ou ainda, pela repressão aos movimentos sociais. O governo petista procurou até o momento aplicar uma política de obediência ao receituário neoliberal com uma maltrapilha política social, que nem de longe se assemelham as políticas de Bem-Estar social, adotadas na Europa no pós 2ª. Guerra.
Para nós negros, este receituário nos guardou uma “peça” exclusiva: o Estado brasileiro assume o seu racismo e concomitantemente desenvolve políticas compensatórias apenas para “inglês ver”. Ou seja, beneficia-se quem sempre nos explorou (os capitalistas) assumindo suas dívidas e se fornecem compensações mitigadas que se reflete no ridículo aumentamos da presença negra nas universidades, em de políticas assistencialistas como distribuição de cestas básicas e o programa bolsa família. O objetivo destas medidas é nos manteremos distantes de um projeto de empoderamento política por parte do povo negro.
Neste quadro, encontramos setores importantes do Movimento Negro presos a uma política de coalizão e atrelamento a diversos governos, tanto em nível federal, estadual e municipal. Esse atrelamento significa falta de autonomia e rebaixamento das bandeiras históricas do bloco antiracista e acaba encontrando justificativa, por um lado, na necessidade do Estado em dar uma resposta ao racismo institucional, e por outro, do Movimento em buscar alternativas de sobrevivência política e material. Evita-se, assim, o necessário confronto e disputa ideológica e dissemina-se a confusão entre a militância negra inconformista que acaba arrefecendo os seus ânimos por diversos motivos: por não compreender a dimensão da luta de classe, pelo oportunismo de algumas lideranças, pela ausência de um trabalho da esquerda socialista no interior do movimento negro, etc.
Neste ponto cabe um questionamento: Porque não há uma efetiva integração, por parte da esquerda, da dimensão étnico-racial da luta política na sociedade brasileira? Se formos consultar os dados estatísticos, encontraremos a comunidade negra como principal vítima das políticas econômicas. Se tomarmos base o processo histórico do país teremos nesta mesma comunidade a responsabilidade pela sua construção e pelas passagens históricas mais importantes de transformação da sociedade. No entanto, injustificavelmente a esquerda evita integrar-se a este setor com o qual poderia construir instrumentos que facilitassem um enfrentamento mais abrangente na luta por transformação social. Um convite à interação das ações da esquerda pressupõe a necessidade de qualificação de todos nós (tanto daqueles que foram segregados do processo educacional, como dos que superaram as barreiras do analfabetismo e adquiriam instrução formal). Isto significa que necessitamos nos aproximar do sujeito real da transformação, o povo, educando-os e nos reeducando, proporcionando assim uma nova práxis para um projeto de país a ser escrito por muitas mãos.
A questão étnica e a questão de gênero devem ser trabalhadas no sentido da construção de um novo projeto. A não percepção da importância destes setores remeterá a esquerda, a que surgiu com a Revolução Industrial e Francesa, a mais duzentos anos de exploração e luta fragmentária, sem que venhamos a construir uma alternativa real de transformação. Explicitamente necessitamos desenvolver políticas de interação e integração da militância progressista com os negros e mulheres, sob o risco de continuarmos fortalecendo a não compreensão da construção do socialismo por parte destes e, no limite, nos tornando co-responsáveis pelos posicionamentos equivocados tomados por estes setores que sem alternativas e a compreensão de um projeto de sociedade, vem repetindo o exemplo estadunidense de 1960, com o surgimento de uma classe média negra, justificando ainda mais a lógica do capitalismo e sua estrutura de classes. O fim do da sociedade de classes não poderá ocorrer sem termos em conta na construção de seu projeto os sujeitos do processo, e estes somos os negros, junto com as mulheres e os marginalizados em geral.
* Edson Bonfim é membro da Comissão Nacional do Círculo Palmarino e do Ação Negra/Rio de Contas-BA.
O Brasil, país que poderia incluir-se entre os subdesenvolvidos, mas, com status de quase-desenvolvido, propõe-se a liderar a criação de uma espécie de “quarta categoria”, dentro da classificação anteriormente apontada, junto a outros países como a Índia e China que tem em comum o fato de se alinharem à política econômica mundial e esforçarem-se na aplicação de medidas neocolonizadoras, de inspiração neoliberal.
Desta forma se desenvolve, paralelamente a este crescimento adesista ao projeto neoliberal, uma política de quebra das organizações sociais e seus instrumentos de luta. Assim, nos confrontamos com a fragilização dos sindicatos (principal arma da classe trabalhadora) e as investidas em torno da cooptação de lideranças dos demais setores sociais organizados. Dito isto, nos encontramos em meio a uma paralisia social desmesurada, onde os mais diversos setores não conseguem responder à falta de política de inclusão. Ou seja, o bloco hegemônico neoliberal, por meio dos Estados, nestes países, investe na desorganização dos setores organizados como forma de mantê-los inertes.
Este fenômeno dá seqüência à conjuntura política mundial favorável ao projeto neoliberal, aberta com a queda do muro de Berlim e a derrocada da União Soviética, que até hoje influenciam os partidos de esquerda e os movimentos sociais. A esquerda e os movimentos sociais que buscam a construção de uma nova identidade política vivem sobre uma oscilação ideológica na sua postura, corroborado pelo crescimento da sua expressão parlamentar e institucional. Ao concentrar-se na via institucional a esquerda esquece-se que ela não é suficiente para uma real transformação da sociedade e acaba se aproximando, cada vez mais, na forma e no conteúdo, de posicionamentos até pouco tempo considerado de direita. Este processo leva a capitulação política e ideológica de setores de esquerda que, nos marcos do Estado e do parlamento burguês, não conseguem esboçar uma alternativa de enfrentamento ao avanço capitalista em sua versão atual.
Neste cenário complexo, estamos não conseguimos ir além de uma forma de luta estritamente acadêmicas e teóricas, em que diante do viés economicista da política neoliberal, a população em geral, é colocada a margem por esta política, que não apresenta resultados sociais satisfatórios. O repúdio geral, no âmbito teórico e acadêmico, verificado em análises de conjuntura política, artigos e debates econômicos, dos resultados para a sociedade, da adoção de uma política econômica neoliberal, não é acompanhado pelo povo que parece não compreender o seu caráter de classe, não se sentindo parte da luta por mudanças e transformação social.
Para tanto, urge compreendermos o mesmo grau prioridade em que se encontram os aspectos políticos, sociais e econômicos para que possamos transformar nosso modus operandi político. Tradicionalmente a esquerda circunscreveu a sua ação, à frente econômica e sindical, e no âmbito da luta social optou pelo movimento estudantil, em que a referência ainda é o setor universitário (apenas uma parcela da população universitária brasileira), fortalecendo uma forma de atuação segregacionista, pois a maioria do povo, negros e indígenas, a qual nos colocamos em defesa não se encontram representados nestes segmentos.
Destarte, encontramos um distanciamento muito grande entre os setores marginalizados e os partidos de esquerda. Estes últimos, ao primarem excessivamente pela luta intelectualizada, o “embate de idéias” e as “guerras de papel”, afastam-se do nível médio de consciência do povo. Nos pleitos eleitorais, infelizmente, torna-se cada vez mais comum à imagem caricata de representantes de esquerda e socialistas que se apresentam como verdadeiros “messias” e com retórica salvacionista recheada de bordões e clichês que não fazem nenhum sentido aos olhos das “massas”. Em certa medida, pelo menos na forma, acabam tendo comportamento idêntico ou similar aos todos demais setores do espectro político-partidário.
O desconhecimento, ou ainda, a não compreensão desta problemática e do seu modum operandis nos leva ao isolamento divisionista e limita nossas ações a macro-política, geralmente, presa aos confrontos ideológicos patrocinados pelo capital. Não estamos aqui, diminuindo esta importância ou mesmo minimizando as ações aqui desenvolvidas pela esquerda, no entanto, em um português explícito, necessitamos integrar os debates econômicos e políticos à ação militante junto aqueles setores – negros, indígenas e mulheres – que são os que realmente se encontram em situação de maior vulnerabilidade e alvos da maior cota de sofrimento causado pelas políticas neoliberais. As fórmulas marxistas do século XIX e XX necessitam ser revisitadas e resignificadas, dentro de um contexto de uma sociedade como a brasileira, na qual 46% da população é negra e excluída secularmente e 50% das mulheres vivem submetidas um regime de servidão e exploração neocolonial. Estes setores, negros e mulheres, que são a maioria da sociedade brasileira, ainda não encontraram no cotidiano político das organizações e partidos de esquerda, as condições de se expressarem plenamente.
Estes são os principais segmentos atingidos imediatamente pelas políticas econômicas “austeras” e ao desmerecermos o potencial político de negros e mulheres, perdemos de vista a consciência revolucionária que podemos construir, desde que estejamos dispostos abrir mão de nossas verdades universais e de uma leitura meramente economicista da política. Vivemos em um cenário em que a dominação do “homem pelo homem” é efetivada através do poder financeiro e não mais pelo chicote dos tempos coloniais. Este fato (o poder financeiro) não é isolado dado que a relação de dominação de uma classe por outra ou de um setor grupo social por outro, ainda se dá através da coerção econômica, recorrendo-se quando necessária à força. Basta-nos, por exemplo, dar olhar de forma breve a política estadunidense em que a coerção econômica e a sua política armamentista são os principais vieses da dominação mundial.
Quando nos debruçamos em nossa realidade nacional podemos ter a dimensão do que tudo isto significa para a nossa sociedade. Assim vejamos: a política econômica desenvolvida no país desde a época de Collor, que colocou o país como integrante do projeto neoliberal, foi seguida e “melhorada” pela permanência tucana por dois mandatos presidenciais e reforçada com a capitulação petista no atual governo, em que em via de regra obedeceu-se o receituário neoliberal, esfacelando a presença do Estado na economia e destruindo as organizações sociais, seja através da cooptação de lideranças e infiltração nos diversos setores, ou ainda, pela repressão aos movimentos sociais. O governo petista procurou até o momento aplicar uma política de obediência ao receituário neoliberal com uma maltrapilha política social, que nem de longe se assemelham as políticas de Bem-Estar social, adotadas na Europa no pós 2ª. Guerra.
Para nós negros, este receituário nos guardou uma “peça” exclusiva: o Estado brasileiro assume o seu racismo e concomitantemente desenvolve políticas compensatórias apenas para “inglês ver”. Ou seja, beneficia-se quem sempre nos explorou (os capitalistas) assumindo suas dívidas e se fornecem compensações mitigadas que se reflete no ridículo aumentamos da presença negra nas universidades, em de políticas assistencialistas como distribuição de cestas básicas e o programa bolsa família. O objetivo destas medidas é nos manteremos distantes de um projeto de empoderamento política por parte do povo negro.
Neste quadro, encontramos setores importantes do Movimento Negro presos a uma política de coalizão e atrelamento a diversos governos, tanto em nível federal, estadual e municipal. Esse atrelamento significa falta de autonomia e rebaixamento das bandeiras históricas do bloco antiracista e acaba encontrando justificativa, por um lado, na necessidade do Estado em dar uma resposta ao racismo institucional, e por outro, do Movimento em buscar alternativas de sobrevivência política e material. Evita-se, assim, o necessário confronto e disputa ideológica e dissemina-se a confusão entre a militância negra inconformista que acaba arrefecendo os seus ânimos por diversos motivos: por não compreender a dimensão da luta de classe, pelo oportunismo de algumas lideranças, pela ausência de um trabalho da esquerda socialista no interior do movimento negro, etc.
Neste ponto cabe um questionamento: Porque não há uma efetiva integração, por parte da esquerda, da dimensão étnico-racial da luta política na sociedade brasileira? Se formos consultar os dados estatísticos, encontraremos a comunidade negra como principal vítima das políticas econômicas. Se tomarmos base o processo histórico do país teremos nesta mesma comunidade a responsabilidade pela sua construção e pelas passagens históricas mais importantes de transformação da sociedade. No entanto, injustificavelmente a esquerda evita integrar-se a este setor com o qual poderia construir instrumentos que facilitassem um enfrentamento mais abrangente na luta por transformação social. Um convite à interação das ações da esquerda pressupõe a necessidade de qualificação de todos nós (tanto daqueles que foram segregados do processo educacional, como dos que superaram as barreiras do analfabetismo e adquiriam instrução formal). Isto significa que necessitamos nos aproximar do sujeito real da transformação, o povo, educando-os e nos reeducando, proporcionando assim uma nova práxis para um projeto de país a ser escrito por muitas mãos.
A questão étnica e a questão de gênero devem ser trabalhadas no sentido da construção de um novo projeto. A não percepção da importância destes setores remeterá a esquerda, a que surgiu com a Revolução Industrial e Francesa, a mais duzentos anos de exploração e luta fragmentária, sem que venhamos a construir uma alternativa real de transformação. Explicitamente necessitamos desenvolver políticas de interação e integração da militância progressista com os negros e mulheres, sob o risco de continuarmos fortalecendo a não compreensão da construção do socialismo por parte destes e, no limite, nos tornando co-responsáveis pelos posicionamentos equivocados tomados por estes setores que sem alternativas e a compreensão de um projeto de sociedade, vem repetindo o exemplo estadunidense de 1960, com o surgimento de uma classe média negra, justificando ainda mais a lógica do capitalismo e sua estrutura de classes. O fim do da sociedade de classes não poderá ocorrer sem termos em conta na construção de seu projeto os sujeitos do processo, e estes somos os negros, junto com as mulheres e os marginalizados em geral.
* Edson Bonfim é membro da Comissão Nacional do Círculo Palmarino e do Ação Negra/Rio de Contas-BA.